ZENTREVISTA: Maria Cristina Monteiro de Barros
RESGATANDO O SAGRADO
Doutora e mestre na área de Psicologia, com experiência internacional na área de saúde, Maria Cristina Monteiro de Barros acompanhou pacientes cardiopatas, com câncer e transplante de medula óssea. Na década de 90, viveu e trabalhou no Hospital Hammersmith, em Londres. Desenvolveu uma abordagem de arteterapia e aconselhamento familiar com uma perspectiva psicodinâmica e despertou para o sofrimento e sua vinculação com a espiritualidade. Ao voltar ao Brasil, atuou no Hospital Albert Einstein e fez pós-graduação em Psicologia Transpessoal, ampliando sua prática clínica, incluindo a dimensão espiritual como inerente ao ser humano. Hoje atua também como pesquisadora no Programa de Pesquisas de Experiências Não Ordinárias e Estados Alterados de Consciência do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq -HCFMUSP) e é facilitadora em cursos de pós-graduação pela escola AlmacomCiência (da qual é uma das fundadoras), Associação Luso-Brasileira de Transpessoal (Alubrat), Universidade Holística Internacional da Paz (Unipaz) e Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino. Nesta entrevista ao JORNALZEN, ela fala mais sobre seu trabalho com a psicoespiritualidade e na área de psiconcologia.


Como é o trabalho na área de psiconcologia. Essa área existe em todos os hospitais que atuam com pessoas com câncer?
A psiconcologia é uma área que se consolida a partir dos anos 80, quando eu estava me formando. Na época, existiam grupos de autores(as), hoje conhecidos, que propunham visualizações para pacientes oncológicos: o sistema imunológico do paciente deveria ser imaginado como soldados lutando em uma batalha contra o câncer. Eram propostas mais amplas, diferentes e criativas. Ali as pessoas estavam realmente desbravando fronteiras e tentando compreender as relações entre a matéria, a imaginação e a criação da realidade; tentando entender a etiologia do câncer, por que algumas pessoas sobreviviam e conseguiam sobreviver ao câncer. Houve um florescimento de intervenções e de pesquisas que propunham um passo além, no sentido de uma integração mais interdisciplinar, entre áreas diferentes do conhecimento; entre práticas como meditação e visualizações, imaginação ativa; entre o corpo, a mente e a alma. No Brasil, isso ganha bastante corpo, e na década de 90 foi criada a Sociedade Brasileira de Psiconcologia, responsável pela certificação dos profissionais da área. Desde então, o apoio psicossocial espiritual cresceu muito e hoje ganha atenção especial. Isso faz toda a diferença com relação aos cuidados a esse paciente e a todos que passam por sofrimentos profundos.
Levando em conta que hoje existem estudos científicos sobre experiências espirituais, o que é psicoespiritualidade e qual é sua importância na formação em Psicologia?
Há muitas pesquisas evidenciando a importância dessas experiências que já receberam várias designações: experiências não ordinárias de consciência, anômalas, extraordinárias, humanas excepcionais, estados alterados de consciência, que se parecem com psicose, ou transpessoais. São experiências pesquisadas por disciplinas diferentes, que não dialogam entre si. Na verdade, é importante que se perceba que o denominador comum de todas elas, sua dimensão noética, a dimensão espiritual, ou aquilo que o indivíduo entende como sagrado, confere à pessoa um sentido existencial e um significado para as coisas, algo maior do que o “eu”. Isso é muito importante na formação em Psicologia. Devagar, as coisas estão mudando. Há cada vez mais pesquisas nessa área que evidenciam a associação positiva e benéfica entre espiritualidade e saúde mental, e a psicologia está tendo que se dobrar a essas evidências. Em meu doutorado, conduzi uma pesquisa que verificou que 92% das pessoas que participaram da pesquisa já haviam vivido um tipo de experiência espiritual. Ou seja, estamos falando da maioria de quase todos os brasileiros.
Há inúmeros relatos de pessoas que, próximas da morte, vivem experiências espirituais. Há algum tipo de abordagem para ajudar esses pacientes?
Essa pergunta tem relação com a prática clínica, ou de que forma podemos construir a partir de todo esse conhecimento que está surgindo dentro da inclusão, da espiritualidade, na saúde. E, especialmente na saúde mental, como isso se traduz na prática. A psicologia trabalha com a laicidade, então o(a) psicólogo(a) não vai fazer proselitismo religioso; não vai passar por cima de crenças do paciente. Vamos respeitar a crença e a maneira como o(a) paciente vai interpretar o que acontece com ele(a): quais são os elementos que traz da cultura e das vivências que já teve, que vão ajudá-lo a interpretar a experiência de proximidade da morte. Isso pode ser feito através de algumas intervenções, como visualizações e a imaginação ativa. Acima de tudo, é fundamental o(a) terapeuta oferecer um espaço seguro de não julgamento e de validação da experiência espiritual. Nós ajudamos o/a paciente a re-sonhar, que é uma técnica a partir da qual o(a) paciente traz o sonho de volta e o amplia em tempo real presente, como se estivesse sonhando naquele momento, na presença do terapeuta. A pessoa vai ampliando o sonho, trazendo os detalhes, as emoções, os sentimentos... enfim, as sensações, trazendo as mensagens, tudo que a pessoa viveu no sonho.
Vinte e sete de agosto é o Dia do Psicólogo. Conte sobre sua contribuição para a formação de psicólogos/as na escola AlmacomCiência.
A consciência é onde nasce a vontade de ampliar essa visão da psicologia, da psicoterapia e de outras disciplinas sobre a espiritualidade, e a relação da espiritualidade com a saúde, especialmente em saúde mental e entre mente e cérebro. Na AlmacomCiência, temos um curso de pós-graduação em Psicoterapia Transpessoal focado nos fenômenos da consciência, fenômenos anômalos e espirituais, na integração desses fenômenos na saúde e no trabalho clínico do psicólogo e do psicoterapeuta. Além disso, oferecemos um curso introdutório à psicologia transpessoal sobre as experiências e espirituais na vida cotidiana, e muitos outros serão lançados em breve.
Como você vê a missão do JORNALZEN, de informar para transformar?
Acho maravilhoso que exista uma iniciativa como essa, que conheço e acompanho desde seu início. Propicia reflexões saudáveis, relevantes e transformadoras para nosso bem-estar e forma de viver.
Quais seriam suas orientações para nossos(as) leitores(as) sobre cuidar de sua saúde e qualidade de vida?
Devemos dar um tempo nessa vida corrida que a gente tem e perceber o quanto a gente está no automatismo, ou quanto a gente está realmente presente.
