ZENTREVISTA: Marcelo Moren Netto

ENTRE TABUS E EVIDÊNCIAS

O médico Marcelo Moren Netto atua como prescritor de cannabis medicinal, alternativa terrapêutica que vem despertando crescente interesse da comunidade médica e científica, embora ainda seja cercada dúvidas e preconceitos na sociedade brasileira. Membro da Sociedade Brasileira de Estudos da Cannabis (Sbec) e com titulação internacional pela WeCann Academy (referência em medicina endocanabinoide), é pós-graduado em Pediatria e Geriatria, assim como adota a abordagem da medicina integrativa. Com mais de 5 mil pacientes atendidos e dez anos de expertise, Marcelo fundou em 2021 a Soul Clínica Canábica, cujo objetivo é oferecer aos pacientes cuidado, amparo e atenção a fim de orientar e mediar tratamentos que assegurem a longevidade com qualidade de vida. Como especialista no assunto, nesta entrevista ao JORNALZEN ele fala mais sobre os benefícios, aplicações e indicações da cannabis medicinal.

Afinal, o que é a cannabis medicinal? Como e quando ela se tornou um meio de tratamento de doenças complexas?

A cannabis medicinal é um fitofármaco extraído da planta da cannabis. Os fitocanabinoides encontrados nessa planta, principalmente o canabidiol (CBD) e o tetrahidrocanabinol (THC), interagem de forma específica com o sistema de regulação do nosso organismo, que é o sistema endocanabinoide. O CBD e o THC agem na fenda sináptica, que é a intercessão entre os neurônios, aumentando sua estimulação, o que permite regular comportamentos, qualidade do sono, apetite, supressão da dor e humor, entre tantos outros benefícios.


Como médico, o que o levou a se especializar em tratamento com a cannabis medicinal?

A terapia se desenvolveu a partir da década de 60 com o químico búlgaro-israelense Raphael Mechoulam, que identificou e isolou os principais componentes da cannabis — o CBD e o THC. Ele desenhou o sistema endocanabinoide identificando como o CBD e o THC se conectam para obter os benefícios desejados. Somente nos anos 80, em parceria com o emérito professor Elisaldo Carlini, da Unifesp, foi conduzido um estudo com pacientes com epilepsias refratárias que passaram a utilizar o CBD. Os resultados mostram que 80% deles tiveram uma redução expressiva das crises epilépticas, alguns ficaram sem crises e outros tiveram uma redução significativa das crises. A partir daí, a comunidade médica e científica atentou para esse novo recurso terapêutico. Como médico, comecei a estudar a literatura e enveredei pelo estudo desse sistema para entender melhor como funciona e para beneficiar o meu filho hoje com 17 anos. Ele apresentou epilepsia refratária aos 5 anos e teve duas paradas cardiorrespiratórias com consequente paralisia cerebral. Diante desse quadro, as crises continuaram durante bons anos com medicamentos alopáticos que traziam efeitos adversos. As crises não eram controladas por completo, então, tentamos outro recurso terapêutico para poder melhorar a qualidade de vida e tentar cessar essas crises. Hoje, com 17 anos, meu filho só faz uso da cannabis medicinal e está há dez anos sem crises.


Porque as pessoas são tão temerosas de serem tratadas com cannabis? Elas ainda confundem cannabis medicinal com a maconha de uso recreativo? Qual é a diferença entre elas?

Dados recentes do DataSenado indicam que 80% da população desejam ter acesso a esse medicamento pelo SUS. Mas essa pequena parcela, por desconhecimento, acaba associando o uso do medicamento ao uso adulto e indiscriminado da planta. Apesar de ser a mesma planta a planta da maconha, o medicamento tem a especificação de canabinoides adequado para cada condição clínica. Então a chance de um efeito adverso é mínima, a tolerância ao medicamento é muito boa e quando o tratamento é bem acompanhado e bem orientado os benefícios superam enormemente as possibilidades de efeitos indesejados.


Parece haver uma certa resistência para o uso da cannabis mesmo em tratamentos cuja pesquisa mostra resultados positivos. Quando ela faz uma real diferença?

Essa resistência vem diminuindo cada vez mais com a estruturação dos estudos clínicos e com a democratização do tratamento. A terapia visa melhorar a qualidade de vida do paciente. Muitas vezes a gente não consegue mudar o ritmo natural da doença, mas consegue trazer qualidade de vida para o paciente porque os sintomas indesejados que trazem desconforto e causam dor ao paciente são reduzidos de forma relevante.


Qual é o estágio atual das pesquisas na área de tratamento com a cannabis medicinal?

Os estudos se desenvolvem ano após ano. Se digitamos a tag “cannabis medicinal” nos buscadores de estudos científicos na internet, encontramos mais de 5 mil estudos. Logicamente que alguns estudos apresentam evidências mais fortes que outros. Com certeza, há estudos mais robustos sobre a epilepsia refratária e a dor crônica, mas existem também estudos satisfatórios para as doenças demenciais (principalmente Alzheimer), sobre a regulação do comportamento, no auxílio ao transtorno e qualidade do sono, no ajuste do apetite, do humor e também para crianças com transtorno do espectro autista com quadros graves. Hoje, há evidências bastante interessantes para tratamento da ansiedade, doenças inflamatórias, doenças autoimunes e fibromialgia.


A cannabis medicinal é vendida em farmácias comuns no Brasil? Ela tem qualidade ou importada é melhor? E os custos são altos?

Hoje é possível comprar o medicamento de cannabis através de receita médica em qualquer farmácia brasileira. A importação desse medicamento é feita, principalmente, dos Estados Unidos e Israel. Em alguns casos, é mais econômico importar o medicamento do que comprar na farmácia. A qualidade do medicamento da farmácia e do importado é a mesma. São dois fitofármacos com perfil farmacêutico que estão totalmente dentro das qualificações necessárias.


Qual a opinião do senhor sobre o JORNALZEN e sua missão de informar para transformar?

Considero muito relevante a proposta do jornal na saúde, com informação clara e responsável que pode reduzir o preconceito e ajudar as pessoas a reconhecerem seus direitos e permitir decisões mais conscientes. Por exemplo, ao abordar o tema da cannabis medicinal, o jornal cria oportunidade de aproximar a população de um tema que ainda gera bastante dúvida. Isso envolve conhecer possibilidades, limites, ouvir fontes qualificadas e evitar o sensacionalismo, como promessas de cura. Acredito que o jornal traduz esses assuntos para uma linguagem mais acessível, sem perder o compromisso com a verdade.


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