Hirana Faé

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Cuidando da criança interior

 

Segundo a psicóloga polonesa Alice Miller, a maioria da população mundial sofre de feridas na alma originadas na infância. Na verdade, essas feridas podem se iniciar muito mais cedo, durante a gestação. Tomando como ponto de partida a concepção, desde a fecundação do óvulo pelo espermatozoide, já falamos do encontro de dois seres distintos, carregados de impressões de seus progenitores. A partir da fecundação, inicia-se uma nova vida, um novo ser que se constituirá de novas impressões somadas a de seus antecessores. 

Durante sua estada no útero materno, desfruta do aconchego, do calor, do balanço da nave mãe e de todas as suas emoções, sensações, alegrias e tristezas, bem como de seu pai, ainda que em menor escala. Através dos neuropeptídios – moléculas da emoção recebidas pelo bebê através da placenta –, tudo que é vivenciado pela mãe chega até ele em forma de memória celular.

Ao nascer, este novo ser passará por enormes desafios. Será sua primeira experiência no universo físico fora do útero, que também se registra na memória celular com a primeira respiração. 

Dá-se início ao trauma do nascimento: passar pelo canal do parto é uma luta pela liberdade. A temperatura muda, a pele seca, os olhos ardem, os ouvidos se ressentem dos ruídos. É a primeira vez que a boca fica vazia e que este ser vulnerável e indefeso fica sozinho. 

Assim, a primeira experiência de um bebê no mundo precisa fazê-lo sentir-se seguro e protegido, e isso dependerá da maneira como ele é recebido e de toda carga emocional já vivida por ele enquanto no útero. A maneira como nascemos condiciona grande parte da nossa vida e a forma como interpretamos a realidade influencia nossa personalidade e as relações futuras. Durante a infância, construímos a imagem de nós mesmos com base na percepção dos outros, em especial de nossos pais ou substitutos. Percepções negativas, dolorosas e abusivas ficaram registradas em nossa criança interior, nos obrigando a desenvolver mecanismos de defesa, reduzindo nossa capacidade de viver na plenitude.

Não importa quão ferido você foi durante a infância. Você sempre pode curar sua criança interior e se reconectar com seu verdadeiro eu.

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