A metáfora do rio invisível

Antonio de Pádua Colosso

 

Dizem que Leonardo da Vinci foi o homem que mais esteve equilibrado entre as duas grandes potencialidades do cérebro. 

Representando a parte racional, foi arquiteto, anatomista, cientista. Pela parte emocional, foi pintor, escritor, poeta. 

Afirmam que se pudermos ser científicos em relação à vida material, seremos prósperos e artistas; em relação à vida emocional, seremos estetas. 

As dimensões científicas e artísticas são pertinentes ao uso da mente, porém existe uma terceira dimensão invisível, pertencente ao Mistério.

Profetizam que o segredo da vida plena é conseguir um bom equilíbrio entre as três faces. 

Associo ao panteão mítico de Bharata (atual Índia) ser regido por três deuses: Brahma, responsável pela criação; Vishnu, pela manutenção; e Shiva, pela destruição.  

Então o Homem, assim como todo grande império, tem uma energia que o cria, outra que o sustenta (por determinado período) e outra que o decompõe. 

Mitólogos consideram dentro de todo território indiano um ponto que é mais sagrado. Trata-se do encontro de três grandes rios: Ganges, Jamuna e Saraswati, “o invisível” – claro, isso é uma metáfora. Os rios simbolizando a fertilidade da vida e Saraswati sendo considerado “a mãe do mundo”, o rio que nutre sem ser visto, tornando o homem um espaço sagrado, sacralizados corpo e mente pertencentes à terra (material). 

Dizem que alguém pode “acreditar” na existência de Deus (a união trimúrti), porém somente “O” sentirá quando tiver “integrado” as três energias, vindo a ser racional em relação aos assuntos práticos da sobrevivência, poético em relação às pessoas e seus relacionamentos e meditativo em relação a si mesmo. Já disse Saint-Exupéry: “o essencial é invisível aos olhos”. 

Assim gira a “roda da vida” (samsara), o ciclo do nascimento e morte até que a sabedoria adquirida pela abertura do terceiro olho (transcendental) leve à integração de todo o potencial humano, penetrando-o no rio invisível onde lá repousará como o lótus que nunca fenece. 

 

Antonio de Pádua Colosso é mitólogo, psicanalista e terapeuta de grupos

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